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Sunday, April 02, 2017

Mário de Sá-Carneiro, Álcool (rendido em romeno por Dan Caragea)

pesadelo
(fonte de imagen: Estúdio Raposa)
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Guilhotinas, pelouros e castelos 
Resvalam longamente em procissão; 
Volteiam-me crepúsculos amarelos, 
Mordidos, doentios de roxidão. 

Batem asas d'auréola aos meus ouvidos, 
Grifam-me sons de côr e de perfumes, 
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes, 
Desce-me a alma, sangram-me os sentidos. 

Respiro-me no ar que ao longe vem, 
Da luz que me ilumina participo; 
Quero reunir-me, e todo me dissipo - 
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além... 

Corro em volta de mim sem me encontrar... 
Tudo oscila e se abate como espuma... 
Um disco de ouro surge a voltear... 
Fecho os meus olhos com pavor da bruma... 

Que droga foi a que me inoculei? 
Ópio d'inferno em vez de paraíso?... 
Que sortilégio a mim próprio lancei? 
Como é que em dor genial eu me eterizo? 

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu, 
Foi alcool mais raro e penetrante: 
É só de mim que eu ando delirante - 
Manhã tão forte que me anoiteceu.




Música e Interpretação por Aires Ferreira
(video por Serpente)


Castele și ghiulele, ghilotine,
Prelung alunecă-n cortegiu toate;
Mă-nconjură amurguri opaline,
De mov bolnăvicioase, sfâșiate.

Aripi de-aureolă auzu-mi bat,
Mă răzvrătesc parfumuri și culori
Tăișuri, ochi rănindu-mi, în vâltori,
Îmi sângerează simțuri, mă străbat.

Eu mă respir în aer de departe,
Luminii ce mă scaldă mă-ntregesc;
Unit mă vreau și întreg mă risipesc –
Mă zvârcol, lupt…În van! Chemări deșarte…

Alerg în juru-mi fără a mă-ntâlni…
Declin e-n tot, ca spuma-n taină piere…
Un disc de aur începe a se-nvârti…
Pe ochi aștern a-ntunecimii fiere….

Ce drog ciudat în vine mi-am prelins?
Satanic opiu-n loc de rai ceresc?…
În ce vrăjitorie m-am cuprins?
Cum oare în durerea-mi veșnicesc?

Nici opiu, nici morfina. M-a-nflăcărat
Pătrunzătorul alcool, elixir,
Din vina mea cutreier în delir –
Prea tarea dimineață m-a-nnoptat.



(Mário de Sá-Carneiro)

(Dan Caragea)

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Sunday, February 19, 2017

Mário de Sá-Carneiro, Distante Melodia (rendido em romeno por Dan Caragea)

(image source: I am the shadow)
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Num sonho d'Iris, morto a ouro e brasa, 
Vem-me lembranças doutro Tempo azul 
Que me oscilava entre véus de tule - 
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa. 

Então os meus sentidos eram côres, 
Nasciam num jardim as minhas ansias, 
Havia na minh'alma Outras distancias - 
Distancias que o segui-las era flôres... 

Caía Ouro se pensava Estrelas, 
O luar batia sobre o meu alhear-me... 
Noites-lagôas, como éreis belas 
Sob terraços-liz de recordar-me!... 

Idade acorde d'Inter sonho e Lua, 
Onde as horas corriam sempre jade, 
Onde a neblina era uma saudade, 
E a luz - anseios de Princesa nua... 

Balaústres de som, arcos de Amar, 
Pontes de brilho, ogivas de perfume... 
Dominio inexprimivel d'Ópio e lume 
Que nunca mais, em côr, hei de habitar... 

Tapêtes doutras Persias mais Oriente... 
Cortinados de Chinas mais marfim... 
Aureos Templos de ritos de setim... 
Fontes correndo sombra, mansamente... 

Zimbórios-panthéons de nostalgias... 
Catedrais de ser-Eu por sobre o mar... 
Escadas de honra, escadas só, ao ar... 
Novas Byzancios-alma, outras Turquias... 

Lembranças fluidas... cinza de brocado... 
Irrealidade anil que em mim ondeia... 
- Ao meu redór eu sou Rei exilado, 
Vagabundo dum sonho de sereia...




În vis de Iris mort, de aur clipă,
Trec amintiri din Timp de-azur, pendul,
Ce mă purta prin voaluri mari de tul –
Un timp ușor și zvelt, un timp-Aripă.

Și-atunci simțirile-mi erau culori,
Într-o grădină patimi se nășteau,
Alte Distanțe-n suflet existau –
Distanțe ce urmate erau flori…

Ploua cu Aur când gândeam la Stele,
Luna lucea pe-nstrăinata-mi fire…
− O, Nopți-lagune, cât de frumoase ele
Pe sub terase-crin de amintire…

Vârstă-acord de Intervis și Lună pală
Când orele curgeau mereu în jad,
Când ceața devenea un dor nomad,
Lumina – doruri de Prințesă goală…

De son baluștri, arcade de-a Iubi,
Punți de lucire, ogive de parfum…
Tărâm nespus de Opiu, foc și fum,
Eu în culori nicicând n-oi locui…

Covoare-a altor Persii, Orient…
Și draperii din Chine, fildeș fin,
Temple-aurii cu rituri de satin…
Izvor de unde umbra curge lent…

Și domuri-panteon de nostalgii…
Și catedrale de-A-Fi-Eu pe mare…
Și trepte în văzduh, trepte de-onoare…
Și noi Bizanțuri-Suflet, noi Turcii…

Curg amintiri… cenușă de brocart…
Mov ireal palpită-n mine-închis…
− În jurul meu sunt Rege exilat,
Un vagabond din al sirenei vis…








(Mário de Sá-Carneiro)

(Dan Caragea)

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Friday, February 17, 2017

Mário de Sá-Carneiro, Estátua Falsa (rendido em romeno por Dan Caragea)

As Coisas da Vida e A Vida das Coisas
(fonte: Psicologia e Vida Livres)
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Só de ouro falso os meus olhos se douram; 
Sou esfinge sem mistério no poente. 
A tristeza das coisas que não foram 
Na minha'alma desceu veladamente. 

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia, 
Gomos de luz em treva se misturam. 
As sombras que eu dimano não perduram, 
Como Ontem, para mim, Hoje é distancia. 

Já não estremeço em face do segredo; 
Nada me aloira já, nada me aterra: 
A vida corre sobre mim em guerra, 
E nem sequer um arrepio de mêdo! 

Sou estrêla ébria que perdeu os céus, 
Sereia louca que deixou o mar; 
Sou templo prestes a ruir sem deus, 
Estátua falsa ainda erguida ao ar...



Cu aur fals privirea-am poleit
Sunt sfinx fără mister în asfințire.
Tristețea a tot ce nu s-a împlinit
Pe ascuns, ea mi s-a pogorât în fire.

Mă sfârtecă săgeți chinuitoare,
Lumini clipesc în beznă șovăielnic.
Fantasme ce ivesc apun vremelnic,
Ca Ieri, și Azi în mine-i depărtare.

De mult în fața tainei nu mai freamăt;
Nu mă-nspăimânt, fiorul nu m-aține.
În luptă viața curge peste mine,
Și nici măcar un tresărit de teamăt!

Sunt steaua ce pierdu-a cerul, beată,
Sirena năucită, fără mare;
Sunt templu fără zeu, în ruinare,
Statuie falsă-n aer înălțată…




(video por Arantza)




(Mário de Sá-Carneiro)

(Dan Caragea)

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Friday, January 27, 2017

Mário de Sá-Carneiro, 7 (rendido em romeno por Dan Caragea)

Bilhete-postal, 1915 jun. 7, Lisboa
a Maria Cardoso de Sá Carneiro, Lisboa
(fonte de imagem: Biblioteca Nacional de Portugal)
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Eu não sou eu nem sou o outro, 
Sou qualquer coisa de intermédio: 
Pilar da ponte de tédio 
Que vai de mim para o Outro.


Eu nu sunt eu, nu sunt nici altul,
Sunt doar ceva ce între noi e-nscris:
Picior al podului de plictis
Ce trece dinspre mine-n Altul.








(Mário de Sá-Carneiro)

(Dan Caragea)

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Friday, January 13, 2017

Mário de Sá-Carneiro, Taciturno (rendido em romeno por Dan Caragea)

Mário de Sá-Carneiro
André Carrilho, Illustration for the book "Lisbon Poets"
published by Lisbon Poets and Co, 2015
(source: flickr)
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Há Ouro marchetado em mim, a pedras raras, 
Ouro sinistro em sons de bronzes medievais - 
Joia profunda a minha Alma a luzes caras, 
Cibório triangular de ritos infernais. 

No meu mundo interior cerraram-se armaduras, 
Capacetes de ferro esmagaram Princesas. 
Toda uma estirpe rial de herois d'Outras bravuras 
Em mim se despojou dos seus brazões e presas. 

Heraldicas-luar sobre ímpetos de rubro, 
Humilhações a liz, desforços de brocado; 
Bazilicas de tédio, arnezes de crispado, 
Insignias de Ilusão, troféus de jaspe e Outubro... 

A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido 
Enferrujou - embalde a tentarão descer... 
Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer - 
Manhãs de armas ainda em arraiais de olvido... 

Percorro-me em salões sem janelas nem portas, 
Longas salas de trôno a espessas densidades, 
Onde os pânos de Arrás são esgarçadas saudades, 
E os divans, em redór, ansias lassas, absortas... 

Ha rôxos fins de Imperio em meu renunciar - 
Caprichos de setim do meu desdem Astral... 
Ha exéquias de herois na minha dôr feudal - 
E os meus remorsos são terraços sobre o Mar...


În mine-i Aur încrustat cu pietre rare,
Sinistru-n sunete de bronz medievale –
Sufletu-mi giuvaer cu raze sclipitoare,
Potir triunghiular de rituri infernale.

Iar în lăuntrul meu s-au ferecat armuri,
Vizierele de fier strivit-au dulci Prințese.
Regala stirpe de eroi de vechi bravuri
În mine și-a lăsat blazoane, prăzi alese.

Crai-nou heraldic peste-avânturi stacojii,
Și umiliri de crin, brocart răzbunător;
Bazilici de plictis, crispări de-armurării,
Trofee mari de jasp, însemn amăgitor…

Podul nedeslușit al lui Am-fost-cândva
A ruginit – și-acum nu pot să-l mai coboare…
Șanțuri adânci în Vag, crenel ce ar mai vrea
Războinici zori de zi, prin tabere-n uitare…

Prin lungi saloane ferecate mă străbat,
Uriașe săli de tron cu densități sporite;
Tapiserii de-Arras sunt dorul destrămat,
Divanurile,-n jur, neliniști obosite…

Imperiu-apune mov la simpla-mi renunțare,
Capricii de satin dintr-un dispreț astral…
Prohoduri de eroi în doru-mi feudal
Cu remușcări ce sunt terase înspre mare…



(Mário de Sá-Carneiro)

(Dan Caragea)

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Thursday, September 15, 2016

Mário de Sá-Carneiro, Vislumbre (rendido em romeno por Dan Caragea)

(fuente: Poesia dos Dias Úteis)
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A horas flébeis, outonais‒
Por magoados fins de dia ‒
A minha Alma é água fria
Em ânforas d’Ouro… entre cristais…




În ceasuri molcome, autumnale ‒
În chinuit amurg ce se petrece ‒
Sufletul meu e însăși apa rece
În amfore de aur… între cristale…



(Mário de Sá-Carneiro)

(Dan Caragea)

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Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro
1890-1916
(fuente: Um Reino Maravilhoso)
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poeta, contista e ficcionista, um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal; juntamente com Fernando Pessoa e Almada Negreiros integrou o primeiro grupo modernista português (o qual, influenciado pelo cosmopolitismo e pelas vanguardas culturais europeias, pretendia escandalizar a sociedade burguesa e urbana da época); este grupo permaneceu conhecido na história como o Geração d’Orpheu (info source: wiki).








(Una Vida Entre Libros)

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